2.7.07

Pequena Gigantesca Miss Sunshine
[ou como pode um filme mexer tanto com você?]

Eu tenho uma família "desajustada". Para ser sincero, não sei exatamente se é possível chamar minha família de “família”. Não sei se ela se encaixa bem nesse termo. Aliás, aos olhos da maioria, eu não tenho “uma família”. Ouvi isso repetidas vezes e, normalmente, nas horas mais inadequadas ou das pessoas de que menos esperava. E isso dói.
Mas, sinceramente, prefiro minha família torta à maioria das “famílias” que existem por aí, com mamãe trabalhando no Tribunal e papai regando o jardim de calção no sábado à tarde. Tenho medo de famílias felizes de comercial de margarina. Minha família, torta, estranha, maluca, desajustada, é, à sua maneira, feliz. Feliz, inclusive (ou, dependendo do ponto de vista, principalmente), pelos momentos infelizes. Pelas ausências, pelas distâncias, pelos desencontros. E felicíssima pela eterna alegria do reencontro. Minha família não acredita em sucesso, fracasso, medo, vitórias nem em nada que cheire a naftalina. Minha família só acredita nos sonhos. E todos gostam do que são, vivendo cada um ao seu jeito e, estranhamente, todos de modo muito parecido. Estranha minha família. Que não se questiona. Que quase não se vê, espalhada por toda parte. Apenas se abraça, se beija, se toca, ri muito e canta e toca violão nas poucas madrugadas em que está reunida.
Mas e o que isso tem a ver com Little Miss Sunshine? Tudo.
Eu vi minha família na Kombi amarela. Eu me vi, cada hora sentado em um lugar diferente na Kombi amarela. Eu vi os meus e os nossos sonhos. Eu vi a buzina do velho Chevette de vó Luzia na buzina disparada da Kombi amarela. Eu vi meu avô Walter. Eu vi meu pai. Eu vi minha mãe. Vi Carol, Tiano, Rodrigo, Juliana, Lutiana, Érica, Marina. Eu vi Thiago. Vi June filha e June vó, e vi Rafaela. Vi Luana, Ieda, Ieva, Iana. Juca, Ana Paula. João Cláudio. Michele e Nicole. Vi Débora. Vi Cadú, Tuca, Rodrigão. Estavam todos lá. Naquela pequena e gigantesca Kombi amarela. E, engraçado: não é que nas horas mais inesperadas estavam, todos, empurrando a bendita Kombi amarela com a buzina gritadora, fazendo ela pegar no tranco e pulando, um a um, dentro dela pra seguir viagem?
E esse, esse é o segredo para se adorar a pequena e delicada obra-prima que é Pequena Miss Sunshine: é ver a Kombi amarela parar e parecer que vai dar tudo errado. É ver todos empurrando a Kombi, e todos pulando dentro dela, e todos seguindo em frente. É ver, naquela Kombi, naquele mundo que é a Kombi amarela de Little Miss Sunshine, os nossos. Cada um no seu mundo. Cada um com seus defeitos, seus erros e suas pequenas imbecilidades. Todos loosers aparentes. Mas, todos, na velha Kombi amarela com a buzina disparada.
Engano seu, cára-pálida: looser é o babaca que acredita em família perfeita e quatro sobrenomes na carteira de identidade. Família perfeita, família "ajustada" é, das duas, uma: hipocrisia coletiva ou cegueira voluntária.

Ficha Técnica
Título Original: Little Miss Sunshine
Gênero: Comédia
Tempo de Duração: 101 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2006
Site Oficial: www2.foxsearchlight.com/littlemisssunshine
Estúdio: Deep River Productions / Bona Fide Productions / Big Beach Films / Third Gear Productions LLC
Distribuição: Fox Searchlight Pictures
Direção: Jonathan Dayton e Valerie Faris
Roteiro: Michael Arndt
Produção: Albert Berger, David T. Friendly, Peter Saraf, Marc Turtletaub e Ron Yerxa
Música: Mychael Danna e Devotchka
Fotografia: Tim Suhrstedt
Desenho de Produção: Kalina Ivanov
Direção de Arte: Alan E. Muraoka
Figurino: Nancy Steiner
Edição: Pamela Martin
Efeitos Especiais: LOOK! Effects Inc.

Elenco
Abigail Breslin (Olive)
Greg Kinnear (Richard)
Paul Dano (Dwayne)
Alan Arkin (Avô)
Toni Collette (Sheryl)
Steve Carell (Frank)

13 comments:

ju said...

você que é danado, andré.
você é que é.
:)

george said...

Um dos melhores filmes que vi este ano. Fantástico! É um filme que pode ser considerado simples e sem muita pretensão, mas a verdade é que ele passa uma mensagem muito forte através de pequenas coisas, gestos, cenas. Belíssimo!

Phylippe said...

quem não compreende miss sunshine, são justamente aqueles que tem 'família" e não precisam empurrar a kombi, tem sempre alguém fazendo isso por eles na suposta "família"


empurra, empurra...

[melhor texto daqui =p]

Waldenrique said...

to esperando minha vez na locadora, hehe, mais não passa desta semana.

Joselia said...

E todos gostam do que são, cada um ao seu jeito e, PERFEITAMENTE, todos de modo muito parecido.
gato, cachorro e galinha.
bom!
bj.

aris said...

adorei bem muito esse filme.
e vi uma família linda...

a moça do sorriso farto said...

Despretensiosamente pretensioso. As pequenas coisas grandes da vida!
beijo

gustavo said...

um dos melhores do ano !
E eu tb estava lá naquela Kombi.
será que somos parentes ?

André said...

um dos filmes mais singelos que eu já vi. é tudo muito "verdade". toca mesmo.

Stefano Ferreira said...

As grandes obras do cinema, são aquelas que alcançam o universal sentimento humano, obras verossímeis que nos espelham e nos fazem refletir nossa condição de homens.
Parabéns pelo belo texto, pretendo ver o filme.

[dea] said...

agora fiquei até com vontade de comprar uma combi! e da série uma-família-bonita-não-precisa-ser-ajustada minha família de crianças preferida [ninguém pode saber]. recomendo fortemente, junto com um pote de sorvete e lencinhos de papel.

Roberto Queiroz said...

E eu que acreditava ser praticamente impossível alguém nos apresentar uma família mais doida do que a do Sam Mendes em Beleza Americana! Pequena Miss Sunshine é simplesmente sublime... A trinca Abigail Breslin, Alan Arkin e Paul Dano é perfeita. Já estou ansioso pelo próximo projeto do casal Dayton/Faris.

(http://claque-te.blogspot.com): Últimos Dias, de Gus Van Sant.

Patricia said...

Esse filme simplesmente não existe: é lindo, ótimo, ua graça e a Miss Sunshine então!!!
Um filme realmente excelente