24.1.08

P.S. Eu Te Amo
[ou o amor não é só isso, baby]



ATENÇÃO: SPOILERS DO COMEÇO AO FIM!

Eu gosto da idéia das cartas que chegam após a morte de Gerry, apesar da solução infeliz para o mistério de como elas eram enviadas. Eu gosto da cena inicial, da briga de Gerry e Holly, que é uma cena meio idiota, com reações meio idiotas, com motivos idiotas e com um happy end à tal briga que faz com que ela pareça, realmente, uma briga idiota e por motivos idiotas, comuns a qualquer casal. Eu gosto da música do The Pogues. Eu gosto do segundo karaokê de Holly no bar. Eu gosto da Irlanda. E eu até que gosto de um certo carisma de Gerard Butler como Gerry. E é só o que eu gosto em P.S. Eu Te Amo.
P.S. Eu Te Amo é um filme covarde. Covarde porque não tenta mostrar se o amor de Holly sobreviveria à dor, à debilitação física e ao sofrimento de Gerry, e apela para a lágrima fácil e a conclusão “morreu tão lindo, jovem e perfeito, de uma hora para outra, meu Deus!”. Covarde porque apela para o jeito Ghost de fazer cinema e mostra a pobre mocinha conversando com o falecido, sentindo seu abraço e se sentindo confortável com o calor inexistente do amado, ao invés de mostrar o incômodo eterno e permanente de quem ama de verdade e perdeu a possibilidade do reencontro. Covarde porque coloca a mocinha sofredora em um pub com duas amigas trintonas tolas e fúteis, que ninguém sabe o que fazem para ganhar a vida e só pensam em encontrar o homem pra chamar de seu e tirar o pé do lamaçal da solteirice, e que ficam o tempo todo empurrando a viuvinha para o primeiro bonitão que aparece. Covarde porque insiste em colocar na tela homens que são “tudo aquilo que uma mulher deseja”, e não homens reais, barrigudos, frágeis, covardes, tímidos, carecas, pobres ou que cantam mal. Covarde porque coloca Holly em um barco com as duas amigas tolas, remando como se nunca tivesse feito outra coisa na vida e, depois, perdendo os remos como se mulheres fossem idiotas. E, pior, sofrendo depois de ficar sabendo que as duas amigas acabam de encontrar tudo o que uma mulher precisa na vida: uma, um casamento; a outra, uma gravidez do homem que ama. E, pior dos piores: as três são salvas por um irlandês delicado (o que, por si só, já é uma incoerência: irlandês e delicado, impossível), lindo de morrer, que sabe fazer de tudo: toca, canta, salva mocinhas indefesas, anda de jet ski, corta lenha, elogia o macarrão alheio, tem a bunda linda (do ponto de vista feminino, bem claro), leva a mocinha pra cama na primeira noite, é o melhor amigo do defunto e, além, de tudo, conversa depois do sexo. É um filme covarde, porque coloca o barman Daniel (péssima interpretação, mas o melhor dos personagens) como o homem que não serve, pois ele é amigo. Amigo e inseguro. Amigo, inseguro e looser. Daniel perdeu a mulher que amava para outra mulher. Percebeu? Percebeu?
P.S. Eu Te Amo é um filme covarde, porque fez do primeiro encontro de Gerry e Holly uma grande bobagem, talvez só superada pela seqüência do estádio, que tinha tudo para ser a melhor do filme e uma das grandes do cinema, e virou uma piada tola. É covarde porque levou Holly, agora acompanhada pela mãe, de volta à Irlanda, e as duas encontram uma nova chance: uma, ao reencontrar o dadivoso e belo ex-melhor-amigo-do-defunto. Outra, ao conhecer um velho fazendeiro irlandês espirituoso e de olhos azuis.
Até mesmo Como Se Fosse a Primeira Vez é mais corajoso, mais delicado, mais emocionante. P.S. Eu Te Amo é uma tolice, que tinha tudo para mexer com tanta coisa e a única coisa que faz é ter um roteiro onde o roteirista parece dizer “agora, chorem!/agora riam/agora sonhem”, e que parece ter tido a consultoria de uma adolescente de 15 anos. Só poderia partir de gente que nunca sentiu o que é uma dor desesperada pela ausência, o que é um amor realmente eterno a mensagem que fica: a de que um grande amor é como táxi em aeroporto; se passar um, siga a vida, que aparece outro em seguida.Tolice de quem nunca amou com uma profundidade maior que a de um pires.
Pode até ser que, no fim de tudo, eu esteja absolutamente errado. Afinal, enquanto eu via o filme o que mais ouvi foi snifs e funcs e “oh, meu Deus, que lindo”. Vou desconsiderar, porque me pareceu que a maioria das choronas no cinema tinha o perfil de quem torce para a Gyselle no Big Brother.
Mas, sinceramente, quero crer, continuar acreditando, que as grandes mulheres, as mulheres realmente interessantes, esperam mais da vida do que aquilo que está ali.

Ficha Técnica

P.S. I Love You, 2007

Direção: Richard LaGravenese
Roteiro: Cecelia Ahern (romance), Richard LaGravenese (roteiro), Steven Rogers (roteiro)
Gênero: Comédia/Drama/Romance
Origem: Estados Unidos
Duração: 126 minutos
Tipo: Longa

Elenco

Hilary Swank (Holly Kennedy)
Gerard Butler (Gerry Kennedy)
Lisa Kudrow (Denise Hennessey)
Gina Gershon (Sharon McCarthy)
James Marsters (John McCarthy)
Kathy Bates (Patricia)
Harry Connick Jr.(Daniel Connelly)
Jeffrey Dean Morgan (William)
Dean Winters (Tom)

5 comments:

Rosa said...

Estou aqui, 10 minutos depois de ler o texto, pensando se vou ou não ao cinema daqui a duas horas ver o filme [já tinha cominado antes]...

[pensando]

...

eu vou, sou teimosa de nascimento; tanto quanto romântica. Digo isso porque, talvez, o lado passional [excessivo] das mulheres façam com elas deixem de interpretar o filme de forma técnica e se limitem apenas a ver o filme com o olhar de "mulher". Enfim... vou ver. Tirar minhas conclusões!

Entenda, não discordo. Pelo contrário! Só acho que muitas vezes nós [mulheres] nos perdemos e deixa a razão de lado...
=/

L.S. Reis said...

Saudações

Bom, pra ser sincera, rs... Eu faço parte da massa que adorou o filme, achou lindo e fez todos aqueles barulinhos nas horas em que o diretor dizia: "chore!", rs. E eu nem assisto Big Brother, se é que isso conta, mas... Não sei, trata-se de um filme hollywoodiano... Não se espera que (hipoteticamente) quando o marido venha a morrer jovem com um tumor no cérebro ou seja lá onde for (essas coisas realmente acontecem...) vá se encontrar o cara com a bunda sarada que conversa após o sexo e tudo o mais... Mas, na minha humilde opinião, o filme não foi covarde. A Holly não foi. Para mim ela representa um ser humano bastante plausível, com sua dor, volubilidade e outras coisas mais, assim como o barman, mas ao contrário do irlandês q aparece depois, rs. De qualquer forma, a sua crítica foi bem interessante, e uma surpresa pra mim, que gosto mesmo de sonhar, rir e chorar quando vejo um filme e fiquei completamente embasbacada com esse em específico, não ousando pensá-lo por um lado que fosse ruim!...

Com certeza mais que isso eu espero... Espero que meu marido possa envelhecer comigo! rs

Abraço.

adam brown said...

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Rosa said...

Infelizmente ainda existem mulheres que têm nos homens sua tábua de salvação, como se não lhes restasse mais nada no mundo além de seguir o caminho alheio. Parecem incapazes de tomar as rédeas da própria vida sem uma companhia masculina do lado. Para que servem família e amigos, afinal??? Costumo dizer que posso até estar solteira, mas sozinha... jamais! O filme até que é bonzinho, mas a única coisa que o salva é a sempre ótima atuação de Hilary Swank.

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Anonymous said...

André, é incrível como vc conseguiu colocar por escrito tudo aquilo que eu achei do filme. Fui com tanta sede ao pote, e voltei com mais sede ainda. Dessa água não beberei de novo. É como vc falou, esse filme poderia ter sido bem mais e bem diferente.
Abs e parabéns pela crítica!
Tereza